paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

domingo, junho 19, 2005

Mais na coluna da direita [o fabuloso decreto do valor de Pi]





Actualizei a secção Leituras em dia da coluna da direita, com a entrada anterior a ser remetida, como costumo fazer para o blogue auxiliar. O livro do professor Jorge Buescu já saíu no ano passado, mas só agora tive oportunidade de lhe dar o devido destaque. "O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias" reúne uma boa colecção de crónicas, escritas num registo informal e breve mas sem conceder à facilidade e ao mau gosto. O autor escreve regularmente nos jornais e sabe cativar a audiência desde a primeira linha, insinuando com humor o mistério e a estranheza que por vezes se encobrem na descoberta científica. Os textos, recheados de dados e informações históricas, sempre referidos a figuras precisas da actividade científica e da investigação ou a teorias matemáticas de que todos já ouvimos falar, encontram-se organizados em várias secções: Matemática, Física, Cepticismos e Fronteiras. Lê-se como um livro de aventuras, de mistérios desvendados ou inconclusos, com personagens raras e excêntricas que defendem ideias fora do comum. É um bom livro para despertar nos alunos o gosto pela reflexão em torno do que parece adquirido, para aprender a gostar da incerteza e dos problemas, para fazer uma pedagogia da descoberta científica.

A história que dá título ao livro, cosntruído em torno do algarismo que aparece nos nossos Bilhetes de Identidade, é um exemplo excelente de como certos mitos urbanos e lugares comuns do saber conformam as nossas representações da realidade, sem qualquer fundamento racional. Basta pensar um pouco... Mas não resisto a deixar mesmo aqui no post uma longa passagem de um dos capítulos do livro [cap. 20] - Indiana Goodwin, o salteador do Pi perdido - onde se conta a história inacreditável de um projecto de lei da Câmara de Representantes do Estado de Indiana, por via do qual se pretendia fixar o valor de Pi... Só lendo mesmo...

* * *

"Assim começa o projecto nº 246, apresentado à Câmara de Representantes do estado americano de Indiana em 1897. Este projecto de lei, descrito meses mais tarde por um jornal de Indianópolis como "o mais estranho que alguma vez passou numa assembleia de Indiana, oferecia de facto uma contribuição extraordinária para a educação: determinava, por decreto, o valor de Pi.

O projecto foi apresentado à Câmara em Janeiro de 1897 por um deputado, Taylor I. Record, em representação de um Dr. Edwin Goodwin, que vivia em Solitude, Posey County. Record admitia não compreender do que tratava o projecto de lei, mas achava que devia ser discutido. Goodwin tinha-o convencido de que a sua "descoberta matemática", ao nível das de Galileu e Newton, traria fama e riqueza ao estado de Indiana: uma vez adoptada, não cobraria direitos de autor no estado de Indiana - apenas no resto do mundo.

O texto do projecto de lei nº 246 é certamente uma das peças legislativas mais obscuras alguma vez compostas: nem o seu objectivo é compreensível. Por exemplo, a primeira das três secções começa da seguinte forma: "Seja registado pela Assembleia Geral do Estado de Indiana: foi descoberto que a área do círculo está para o quadrado de uma linha igual ao quadrante de uma circunferência assim como a área de um rectângulo equilátero está para o quadrado de um dos lados."

As últimas catorze palavras são uma forma notável de dizer "como 1 está para 1"."
[p. 121]

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