paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Poeira da Mudança e a irrelevância da escola

Na crónica de hoje, intitulada Poeira da Mudança, JPP escreve a dado passo acerca do tempo que aí vem, que já chegou: "As pessoas terão que aprender literacias próprias para distinguir o que é editado do que não é, o que se aproxima da verdade e o que é falso (ainda estão longe disso, continua a pensar-se que basta ler, escrever e contar). Os meios tradicionais de reprodução dos saberes, a escola e a família perderão cada vez mais importância como factores de socialização substituídos pela publicidade, a televisão, a moda, as conversas virtuais, os grupos juvenis."

A marginalidade crescente da escola é um dos motivos de angústia da própria escola - ou seja, dos professores - e constitui um dos factores do discurso apocalíptico e anti-moderno que domina, em profundidade, mesmo se não é inteiramente verbalizado, o panorama escolar. Eu não partilho dessa visão do apocalipse, que faz da escola um foco de resistência virtuosa, sitiada por uma sociedade que tenta a todo o custo perverter-lhe os princípios. A escola será no futuro, como é agora, aquilo que a sociedade, as pessoas comuns e as elites, fizerem dela. A situação parece paradoxal: quanto mais irrelevante a escola parece ser, mais ela é necessária para regular as aprendizagens desreguladas e intuitivas que ocorrem fora do seu contexto.

Talvez a escola acabe por se tornar, num futuro de que que apenas se prevê agora a poeira, num centro de certificação de saberes e de aferição de competências que se adquiriram fora dela e nas suas margens. Mas ainda assim a escola, talvez singularmente desmaterializada, mantenha o seu lugar, já não para gerar todas as aprendizagens mas para as regular num mundo aparentemente em vertigem.