paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

segunda-feira, novembro 22, 2004

TPC para quê?


[Escola EB Alpiarça]

O jornal Público [que deixou recentemente de ter uma secção de educação] apresentou no domingo passado duas páginas cheias com depoimentos e algo de reflexão acerca dos "trabalhos de casa" a que os nossos alunos são submetidos, depois da sua jornada na escola. O problema, como todos os que envolvem o ensino e a aprendizagem, é complexo. Em Portugal o mais certo é este assunto ser ainda terreno virgem, matéria que não está na agenda da escola. A rotina é o que é, e o que é é o que costuma ser, o que tem sido.

Sob o título "Alunos portugueses passam mais horas a fazer trabalhos de casa do que a média dos países da OCDE" - título que faz a manchete da edição de Domingo - ficamos a saber que a situação em Portugal, neste capítulo, é de "quanto mais melhor".

O debate foi lançado, com mérito, apesar de inusitado, por Eduardo Sá e Mário Cordeiro, dois especialistas que fizeram a proposta de uma greve aos trabalhos de casa no sábado passado, a pretexto do 15º aniversário da Convenção sobre os Direitos das Crianças. O jornal aceitou o desafio e ouviu pais, alunos e professores.

O mais interessante parece-me ser a sugestão de que os trabalhos de casa deveriam ser feitos na escola. O que aliás é óbvio, não obstante o nome parecer contradizer a proposta em si mesma.

Primeiro que tudo há que ter bem claro o que pode ser considerado um trabalho de casa. Em segundo lugar, deverão ser definidos objectivos e estabelecidos padrões, para evitar uma prescrição arbitrária dos TPC's. Cada disciplina, cada área de saber, terão as suas exigências mas uma escola não deveria permitir tudo e o seu contrário, sob risco de se perceber que simplesmente não pensa no assunto.

A qualidade do tempo passado na escola, antes, entre ou depois das aulas, por parte dos alunos é muito variável e frequentemente muito baixa. Seria possível, com um pouco mais de concertação, aproveitar melhor os recursos de uma escola e criar salas de ajuda aos alunos que não podem contar com ajuda de qualidade em casa. O factor de classe (social) é muito poderoso, quando se trata de apoiar uma criança na realização de uma tarefa mais complexa. E a escola, que não pode fazer reengenharia social, bem entendido, pode no entanto ajudar a minorar alguns dos pecados da sociedade em que vivemos. Ou acreditar nisto é ser ingénuo?

2 Comments:

  • At 10:18 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    Sou mãe de uma aluno do 6º ano de uma escola pública de Lisboa. O ano passado (e este também) teve uma professora de português que pôs toda a turma a trabalhar. E nesse trabalho, havia resmas de trabalhos de casa, em que eram obrigadas a fazer composições (primeiro com tema dado e depois tema livre), retirar exemplos (quilos deles) das aplicações gramaticais, das conjugações de verbos, conjugação de adjectivos, o que era isto e mais aquilo. As horas "perdidas" deram origem a nomes feios (à professora, claro!), choro e ranger de dentes sobre a (in)utilidade de todo o processo. Este ano, começaram a escrever: poesia, histórias, peças de teatro, etc. etc. O resultado - A NÍVEL DE TODA A TURMA - tem sido surpreendente. Os pais, babadíssimos, falam das aptidões estilísticas dos filhos: das estrofes, das rimas, dos conceitos desenvolvidos, das pesquisas literárias que as criancinhas vão efectuando. E só tenho a dizer: abençoada professora! Abençoados trabalhos de casa! Abençoados fins de tarde, ela e eu, debruçadas sobre os livros à procura disto e daquilo. Só tenho pena que nas outras disciplinas não seja também assim: como a história, como a ciências, por exemplo.
    Beatriz Nolasco

     
  • At 3:16 da tarde, Blogger José Gustavo Teixeira said…

    Cara amiga Beatriz li com muito interesse o seu comentário. Pelo que me diz o caso da turma do seu filho é verdeiramente um caso feliz e, curioso como sou, gostaria de saber mais sobre o assunto. Mas isso não caberá certamente nos estreitos limites de um blog como este. Em todo o caso devo sublinhar que no meu post não tomei partido dogmaticamente contra os TPCs.

    Eu sou professor e também recorro frequentemente a TPCs, mas admito que nem da minha parte, nem da parte de outros colegas, que eu saiba, se acautela suficientemente a carga de trabalhos (a expressão é mesmo esta) a que submetemos os alunos.

    Em meu entender o problema não é primariamente se deve haver ou não trabalhos de casa - não vi ninguém defender a sua simples eliminação - mas quais os objectivos a que eles devem corresponder e, sobretudo, se os alunos têm condições pessoais, de escola, familiares, para os realizar.
    A escola deve promover o valor do esforço individual, assim como do trabalho de equipa, o valor da curiosidade saudável, o valor do conhecimento. Mas uma prescrição cega de TPCs, quando o aluno não tem condições familiares para corresponder a essas solicitações, só torna as aprendizagens mais difíceis e a experiência escolar um motivo de contínua frustração. Sobretudo no ensino básico, que por isso mesmo é para todos. E aí a escola falha. Porque o TPC feito com o apoio activo e decisivo dos pais não envolve qualquer mérito da escola ou do professor, mas apenas da família que apoia a criança. No seu caso o seu filho teve o acompanhamento devido e felizmente aproveitou da exigência da professora. Mas esse mérito é seu, não da professora ou da escola. Independentemente da competência particular da professora de Português, não estou a colocar isso em causa. Apenas gostaria de insistir em que o sucesso escolar dessa turma na disciplina deve ser muito bem repartido. Também cabe, e em grande medida, pelo que me diz, aos pais.

    Mas se a exigência numa disciplina, central como é o caso, se multiplicasse, por todas as outras? Seria possível suportar essa carga de TPCs em todas as disciplinas? E, por outro lado, pergunto se a prescrição de TPCs era coordenada com os outros professores ou apenas resultado de uma prática pessoal da professora?

    O bom caminho, a boa prática, deve passar algures entre a exigência e o esforço, o cuidado com os alunos e as suas necessidades particulares de trabalho.A escola não responde pela organização social, mas se a ignorar completamente acaba por potenciar as suas injustiças.

    Agradeço uma vez mais o seu comentário. Espero ter sido suficientemente claro para que possa merecer ser rebatido. Obrigado.

     

Enviar um comentário

<< Home