paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

sexta-feira, novembro 05, 2004

Sobre a presumível estupidez do eleitorado americano



As palavras que seguem são um comentário ao post de Ademar Santos no Abnoxio. Não pretende fazer polémica; é apenas um desabafo na volta do correio.

Desculpe a franqueza (às vezes parece que devemos pedir desculpa por sermos francos): acho o seu comentário sobre as eleições americanas de uma arrogância imensa. E eu explico porque penso isto, para não parecer que apenas me apeteceu insultá-lo, o que obviamente não é o caso.

1. A democracia, pelo menos para mim, não é um regime perfeito quando confirma as minhas escolhas e uma coisa abominável quando refuta as minhas mais fundas convicções;

2. Tenho a minha opinião sobre os candidatos das presidenciais americanas mas não penso que os que não fariam ou não fizeram a minha escolha sejam estúpidos.

3. A alusão ao pedigree social é de um mau gosto sem perdão; em democracia não ganha o candidato com maior pedigree, o mais culto, o mais bonito, o mais inteligente, o de melhores famílias, o do lado certo da vida, o que trabalhou mais, o que não fuma... ganha quem convencer os eleitores. Como já não vivemos na ágora grega os processos hoje são um pouco mais sofisticados do que então. A isto chama-se democracia, desde a Grécia.

4. Dizer que uma escolha colectiva e maioritária é um atestado de estupidez que um povo passa a si mesmo significa só uma coisa: que não se acredita verdadeiramente em democracia... ou que se acredita apenas na democracia que nos dá a vitória, seja em que circunstância for. Eu não queria ser desagradável, mas isso tem um nome.

5. Já agora, ocorre-me perguntar: e se a opinião pública americana resolvesse dizer das nossas escolhas eleitorais aquilo que muitos de nós dizem das deles? Que nomes lhes chamaríamos?

6. Há quatro anos a circunstância do candidato democrata ter vencido no voto popular e perdido no colégio eleitoral foi um tema de grande debate e perplexidade entre nós - e foi um argumento para menorizar ou colocar em dúvida a eleição de Bush; hoje a vitória deste, quer no voto popular como no colégio eleitoral não lhe dará um suplemento de legitimidade para governar?

7. E volto ao princípio: dizer que os americanos são estúpidos porque escolheram o Bush é supor que nós - europeus, portugueses, lisboetas ou portuenses, ou bragantinos... etc - sabemos melhor do que eles qual é o melhor candidato para os governar. Que nome é que isto tem? Que diria a alguém que o quisesse substituir na sua decisão eleitoral? Eu sei que nome lhe chamaria, se acontecesse comigo, claro!

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