paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

quarta-feira, novembro 10, 2004

Praxes... para que vos quero!



No Correio da Manhã de ontem, quarta-feira, destaco uma notícia com o título Praxes chegam a tribunal. Uma vez mais o problema dos excessos que revelam o lado imeditamente perverso do ritual de entrada na Universidade. Não vou agora discutir se é legítimo fazer a praxe, se há uma tradição que justifique a excepção e a anomalia que a praxe representa na ordem da relação entre as pessoas. Não tenho uma opinião consistente e definitiva sobre o assunto, que me permita ver para além do folclore de que todos os anos se fala.

No meu tempo de estudante universitário a praxe era uma coisa de mau gosto, ficava para os outros cursos. Na minha Faculdade não me recordo de ver aquelas penosas filas de alunos conduzidos pelos colegas, que são uma das imagens de marca da função.

Mas a praxe de que se fala e que faz polémica nos jornais, no início de cada ano, não se apresenta apenas numa espécie de versão branda, inócua e "reinadia" em que todos acabam amigos e felizes. Há um lado obscuro da praxe que confina com a violência ou que ultrapassa os limites de uma ética mínima entre iguais. Há uma verdadeira potência de desprezo e de capacidade de humilhar que se revela nestas alturas. E há os limites do bom gosto, imprecisos e vagos, mas que existem lá onde se resguarda do abuso gratuito aquilo a que damos o nome de dignididade individual.

Vem isto a propósito da notícia que foi ontem manchete em vários jornais e que se refere ao caso de uma aluna da Escola Agrária de Santarém que acusou os colegas de exercerem "tortura" durante um "baptismo de caloiros". Segundo o jornal, "o Ministério Público, num caso inédito, acusou sete pessoas – seis membros da comissão de praxe, por crime de ofensa à integridade física qualificada, e um veterano, acusado de coacção e injúria." Um juiz decidirá agora se haverá ou não lugar a julgamento. Não comento os detalhes nem as peripécias do episódio. Mas algumas das afirmações de alunos consternados com a chegada do caso a tribunal chamaram-me a atenção.

A Associação de Estudantes, afirma que "é inaceitável que o caso vá para tribunal". A presidente da AEESAS afirma: "Eu também sofri com esterco na cara, mas faz parte da tradição". Mas o esterco já não se usa como antes, diz ela. A não ser "quando o caloiro merece". Segunda a mesma dirigente associativa, os alunos que recusam a praxe apenas se vêm impossibilitados de participar nas actividades organizadas pela associação de estudantes.

Lê-se e é difícil acreditar. Para começar a tradição já não é o que era, - já sabíamos - e, se calhar, nunca foi bem aquilo que parece. Mas que tradição é esta que se limita a um atavismo que cola uma certa dose de violência psicológica e de degradação do gosto com a representação de uma hierarquia fictícia? Ser "caloiro" é o pecado capital de todo o estudante; e só se redime pela submissão a uma hierarquia inventada, arbitrária, discricionária. O caminho da humilhação liberta. Quem foi praxado um dia, será recompensado no futuro e poderá então praxar. Mas quem recusa, por castigo, nunca terá esse direito, afirma a dirigente estudantil.

Finalmente, quem recusa as regras é excluído da tribo. O proscrito perde o direito a participar nas actividades organizadas pela associação. Num certo sentido não chega a pertencer à tribo, porque não aceitou a imposição dos rituais de passagem. O princípio é repugnante, a exclusão do grupo em virtude da recusa de participar num jogo em que o resultado nunca dá boa imagem a quem se submete. Mas como as coisas são o que são, e a academia é o que é, não acredito que estas regras sejam suficientemente levadas a sério. Quem é que pode levar a sério uma tradição trapeira e remendona cujo modelo é a submissão perante o "chefe" e o conformismo para com regras absurdas?

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