paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

quinta-feira, novembro 04, 2004

Pôr a rapaziada a ler jornais, pois claro senhor Secretário de Estado

O Expresso deste sábado publica nas páginas 28 e 29 do seu caderno principal um inesperado texto do senhor Secretário de Estado-Adjunto do Ministro da Presidência, Feliciano Barreiras Duarte, acerca da leitura de jornais entre o público mais jovem. O artigo provocou um post crispado no Profidências e um comentário desafiador do Jorge aqui no blog. Autocontradição? Vamos lá aos jornais pràs escolas!!! , é como o colega postou a sua indignação relativamente às afirmações do governante. Na verdade, depois de algumas afirmações desatrosas na área sensível da comunicação social, é natural que todos olhemos com desconfiança o anúncio de qualquer medida que vise alargar os públicos leitores de jornais.

O artigo chama-se precisamente "Pôr os jovens a ler jornais" e faz um balanço negativo dos indicadores de leitura de jornais no nosso país. Afirma que, de acordo com estudos de 2001, da responsabilidade da Associação Mundial de Jornais, a taxa de leitura de jornais diários no nosso país se situa nos 91 por mil habitantes, contra os 255 por mil em que se situa a média europeia. O autor reconhece que os índices de leitura andam a par com o nível de desenvolvimento, dando o caso do Japão, da Noruega e da Finlândia.

Afirma: "A criação de programas que introduzam os jornais como suportes informativos nas escolas como recurso auxiliar para a formação de cidadãos críticos, comprometidos com os valores da democracia, interacçaõ e participação social, tem sido usada com alguma frequência, não apenas em países europeus e nso Estados Unidos da América, mas também na América Latina, e com assinalável sucesso". Cita-se um estudo, da Associação Americana de Jornais, em que se diz: "Se na escola preparatória e secundária fizermos com que as pessoas vejam o jornal como algo a que recorrem para aceder à informação, então elas continuarão a fazê-lo."

E mais adiante o senhor Secretário de Estado escreve: "Neste contexto, a introdução de programas de utilização dos jornais como suporte didáctico nas escolas tem especial importância como parte integrante de uma estratégia nacional de incentivo à leitura, tanto para criar novos públicos (...) como para desenvolver uma acção de mercado indutora do consumo de informação de qualidade."

Finalmente, e sem abrir o jogo, o Secretário de Estado, anuncia medidas de promoção da leitura de jornais entre os portugueses, que estarão a ser negociadas com a Associação Portuguesa de Imprensa. Não fica claro qual será a natureza das medidas em preparação, como também não me parece claro que essas medidas se dirijam preferencialmente aos jovens e às escolas.

"É que os hábitos de leitura dos portugueses têm de mudar"
, afirma; também nos parece que sim. Só falta dizer quais são as medidas previstas, porque as proclamações voluntaristas são de bem pouco valor quando a iniciativa falha no terreno. E depois também teremos de ver se estamos em face de um programa continuado no tempo, bem direcionado para o seu público, que fale a linguagem da escola, e não perante um simples acto de propaganda gizado a partir da tão famosa central de informação.

4 Comments:

  • At 11:04 da tarde, Blogger Jorge said…

    Uma das medidas já parece estar tomada pel'O Expresso. É efectivamente dirigida aos jovens e às escolas: o concurso «Repórter Expresso» (vide coluna 'Últimas' p.32 do 1º caderno), reportagens a publicar na revista Única do mesmo jornal.
    As minhas supeitas sobre os intuitos economicistas parecem tomar forma.

     
  • At 11:04 da tarde, Blogger Jorge said…

    Uma das medidas já parece estar tomada pel'O Expresso. É efectivamente dirigida aos jovens e às escolas: o concurso «Repórter Expresso» (vide coluna 'Últimas' p.32 do 1º caderno), reportagens a publicar na revista Única do mesmo jornal.
    As minhas supeitas sobre os intuitos economicistas parecem tomar forma.

     
  • At 2:31 da manhã, Blogger José Gustavo Teixeira said…

    Caro Jorge, não creio ter cometido a indelicadeza de lhe chamar a atenção "de que aquilo que escreveu não terá sido escrito da melhor forma", pelo menos de forma consciente. Não compreendi a sua posição (que pressenti ter alguma ironia implícita) porque reagia com alguma acrimónia a um artigo que não me parecia trazer nada de substancialmente novo, e portanto, num certo sentido, nem sequer ser polémico. O secretário de estado começa por reconhecer que em Portugal se lê menos jornais do que noutros países europeus, estabelece uma relação entre o desenvolvimento de um país e a partilha de informação que a leitura de jornais ajuda a patrocinar e aponta para uma abstracta valorização da imprensa regional, sem explicar de que modo essa valorização se faz no território da escola. Num certo sentido é um artigo inesperado e que não traz nada de novo. Aquilo em que poderia esclarecer, não esclarece, porque apenas ficamos a saber que o governo está a negociar alguma coisa com uma entidade e não sabemos o que vai sair.
    Mas também não me parece que se possa dizer, como afirma, que o consumismo está em primeiro plano. A não ser que a interpretação e a preocupação (que todos partilhamos certamente) relativamente ao baixo número de venda de jornais por mil habitantes, seja consumismo. Não me parece, até porque a promoção da leitura de jornais, nomeadamente entre os jovens em idade escolar, se faz numa perspectiva de médio prazo na qual a questão do mercado e da sobrevivência dos jornais e das empresas de comunicação jogam um papel central. Ou seja, fazer a promoção da leitura de jornais entre os jovens, também é apostar, a prazo, na viabilidade económica de projectos editoriais e de jornais, sem os quais, obviamente, o esforço de promoção terá sido tempo perdido.
    Também não me parece que a questão, relativamente às escolas, se esgote na pergunta: "Quem é que paga a assinatura disto?" Terá de haver investimento e isso passará provavelmente por uma política de apoio à aquisição de jornais por parte das escolas ou dos próprios alunos, como vai acontecer em França. Não revelar já os recursos que vão ser disponibilizados para este plano, se é que há um plano, de que duvido, não é hipocrisia, é irreflexão e pouca ponderação. O que me parece é que o governo pretende ajudar a definir a agenda politico-mediática, até por antecipação, revelando quase-decisões, quase-planos de apoio, partilhando a eminência de um acordo... de que não se revela o teor, etc.
    Concordo com a sua sugestão de que a notícia cai de nenhures e é avulsa. Depois de tudo o que já vimos e lemos é de desconfiar. Aquilo que interessa não é saber que o governo está cosnciente da importância da leitura de jornais, quer do ponto de vista da criação de uma opinião pública informada, quer do ponto de vista da viabilidade do mercado da imprensa diária. Isso é um dado adquirido, aqui como na China. O que nos interessa a nós, professores e interessados na matéria, são as medidas que o governo está interessado em tomar no terreno. Mas de forma consistente e duradoura. E comercialmente sustentadas. E aqui, em termos de linguagem, provavelmente não concordaremos.

     
  • At 7:54 da tarde, Blogger Jorge said…

    Para um entendimento mais cabal da minha posição, vide o post que coloquei hoje no meu blog.
    Saudações cordiais e democráticas.

     

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