paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

segunda-feira, novembro 29, 2004

Pequena história de um fracasso

Com o pretexto de assinalar os 18 anos [cumpridos ontem] da João de Barros, a minha escola, enviei cerca de uma centena de mensagens a professores e ex-alunos da JB a pedir uma história, uma evocação breve. Esta é a minha história, uma história triste de fracasso. Poderia ter escolhido outra; na verdade sempre que me dispunha a escrever não sabia por onde começar. São imensas as histórias felizes. Esta é diferente.

O episódio refere-se à época do Europeu de 2000, que teve lugar na Bélgica e na Holanda. Lembro-me do jogo da selecção portuguesa com a Polónia que terá decorrido, se a memória não me falha, a 10 de Junho, feriado nacional. A história envolve um rapaz que foi meu aluno (na verdade não foi mas eu digo assim para facilitar e evitar uma explicação especiosa) e que designarei pelo nome fictício de Tiago. O rapaz quase não tinha família, vivia praticamente num estado de abandono. Sem pai, com mãe ausente muitas horas por dia, inclusivé durante a noite, por motivos profissionais, e tinha já passado por instituições de acolhimento. Na escola criava frequentemente conflitos com professores e com colegas, mas no trato pessoal, fora da aula, parecia de uma doçura desarmante. Bastante calmo e afectuoso no trato, melancólico e tímido, procurando sempre um sentido de justiça nos conflitos em que os colegas se envolviam, e acima de tudo buscando um nicho na escola onde encontrasse alguma paz, o apreço e o reconhecimento que não tinha lá fora nem na sala de aula.

No dia do jogo com a Polónia, feriado nacional, estava sózinho em casa, como frequentemente acontecia, e foi na maior solidão que o Tiago viu o jogo e viu a selecção portuguesa marcar quatro gloriosos golos. Disse-me, dias depois, sem deixar o rigor da melancolia, que ficava tão contente após cada golo que vinha à janela de casa, de um prédio tipicamente sub-urbano de muitos andares, gritar para a rua: "Golo!". Era-lhe impossível conter a alegria, mas não tinha ninguém com quem a partilhar. Nunca ouvi nada tão triste.

Durante meses convivi regularmente com o Tiago, numa actividade extra-curricular absolutamente livre mas em que participava com grande frequência. Conversavamos quase diariamente, sem paternalismos, esbatendo tanto quanto possível a evidência de que uma relação entre um professor e um aluno nunca é uma relação entre iguais. Creio que o Tiago desenvolveu por este professor, que parecia nunca dar aulas, uma relação de grande apreço e reserva, até de alguma distância delicada. Depois começou afastar-se.

Algum tempo depois a gestão da minha escola pediu-me, com sentido urgência, que aceitasse exercer apoio de tutoria ao Tiago. Em condições difíceis e muito singulares. Aceitei a tarefa, porque uma coisa destas não se pode recusar. Faltava o mais difícil. Conquistar a confiança do Tiago, conseguir que voltasse ao convívio diário. Mas o rapaz esquivava-se. Das poucas vezes que consegui encontrá-lo pela escola, parecia sempre a ponto de fugir e de se esconder. Nunca mais aceitou sequer falar. Respondia-me sempre a deslizar para outro lado. Tinha percebido que o estatuto acabava de se alterar. A história acaba aqui. Não voltei a encontrá-lo. É a história mais triste que tinha para contar.