paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

segunda-feira, novembro 01, 2004

No tempo do Correio de JB

No domingo passado o jornal Público anunciou, como ocorre já há bons anos por esta altura, os vencedores do Concurso Nacional de Imprensa Escolar. A extensa lista de jornais e jornalinhos premiados pode ser consultada neste post que aqui deixámos há menos de uma semana. Durante anos coordenei um jornal escolar para o qual este concurso constituiu um balão de oxigénio e até, por estranho que pareça, uma boa fonte de legitimidade externa à escola. É bastante difícil falar desses tempos sem alguma nostalgia. Deixarei a pequena história para outra altura, o imenso caudal de experiências e de lições que a publicação do jornal me proporcionou. Presumo que a Ana Carina Moreno, que também colabora na [paixão] e é finalista de comunicação social, compreende o que escrevo. Também partilhou comigo, enquanto aluna, boa parte das peripécias do nosso jornal impresso em papel JA de 50 gramas.



O nosso jornal chamava-se Correio de JB. O número zero, à cautela, para não numerar o que poderia ser um fracasso editorial à nossa escala, saiu em Junho de 1997. Eram então 12 páginas, mais um caderno de 4 páginas - suplemento Viagens - dedicado a diversas visitas de estudo realizadas durante aquele ano. Depois seguiram-se três anos de edição regular, a três números por ano, mantendo sempre o mesmo formato, mas diversificando o tipo de matérias e de géneros jornalísticos. O jornal, entretanto, aumentava em número de páginas (chegando às 32), variava os suplementos - um suplemento sobre a recuperação de uma embarcação tradicional, outro sobre uma actividade do Projecto de Promoção de Escolas Saudáveis, um suplemento sobre graffittis, a propósito do aniversário do 25 de Abril, uma versão em inglês do nosso jornal - a English Version - e muitos outros de que não me lembro agora. Houve edições tumultuosos ou a minha memória desses tempos é que é um pouco tumultuosa. Em 2000 o jornal passou a sair mais espaçadamente, o trabalho foi reorientado mais no sentido da formação e menos no sentido da publicação regular. Em bom português hoje já não há jornal.

Interessa-me aqui colocar algumas questões, tematizar alguns aspectos da concepção de um jornal escolar, sem perder de vista que se tratou de uma experiência de âmbito estritamente escolar. Na altura fomos pioneiros na nossa escola, pelo menos naquele formato e com aquela ambição. Não há grande mérito nisso, basta ser o primeiro. E foi o que fizémos: começar a construir uma cultura de jornal, de gosto pela notícia e pelos factos, respeito pela opinião, mesmo se incómoda, centrada num espaço físico e simbólico ao mesmo tempo, a Redacção. De facto tínhamos uma Redacção, de início errática, mas era lá que trabalhávamos quase diarimente.


Para que serve um jornal escolar?

O primeiro sobressalto foi a conquista de autonomia editorial em face do orgão de gestão da escola - a expressão parece pomposa mas acredito que ainda não se inventou outra melhor para dizer isto. Parecia natural, na altura, que um jornal escolar deveria ser, quanto muito, uma variante de boletim oficial, publicado depois de uma espécie de leitura prévia ou de anuência tácita do Conselho Directivo. Um nihil obstat, no tempo certo, para evitar surpresas. Conquistámos (também não vejo outra palavra) o direito a definir os conteúdos e a orientação do jornal contra as expectativas e mesmo contra a prática estabelecida. Os incidentes dessa conquista não cabem aqui.

Hoje, passados alguns anos sobre estes episódios, creio que a autonomia editorial - fundada nos alicerces do projecto educativo da escola e não no arbítrio - é um dos aspectos centrais na determinação do valor pedagógico de um jornal escolar. O exercício da liberdade, a experiência da liberdade de expressão no contexto duro de uma escola, a experiência da decisão, quando se trata de escolher conteúdos, optar por uns e desistir de outros, a construção da opinião no quadro da responsabilidade, não são fantasias. São, em meu entender, o maior património de que nos podemos orgulhar e de que tirámos proveito. Os jovens do JB (alguns mesmo muito jovens) fizeram essa aprendizagem, por vezes em circunstâncias penosas.

Durante aqueles anos fui confrontado frequentemente com uma dúvida: deveria um jornal escolar tentar ser como os outros jornais? Pode um jornal de escola ser como os outros, no essencial, claro? Estas perguntas justificam outras. Por exemplo, quais são os limites, em ambiente escolar, à liberdade de expressão? O que é uma notícia num jornal escolar? Um conflito entre orgãos de gestão, que repercute na vida escolar, deve ser notícia? Um processo eleitoral conflituoso, a nível de escola, deve ser objecto de notícia e divulgado junto dos leitores do jornal, a comunidade escolar? Quais são, no âmbito da redacção de uma publicação escolar, os temas proibidos? Porque eles existem... Qual é o espaço dos alunos e o espaço dos professores, no tratamento da informação, inclusive no acesso à inforemação? Finalmente, porque o post já vai longo, para que serve um jornal escolar?

Eu diria, se isso não me levasse agora para a matéria de outro texto, que um jornal escolar deve ser tão parecido, quanto isso for possível, com um jornal de referência. E que um jornal escolar deve priveligiar a notícia e fazer uma pedagogia positiva da notícia e dos factos, suscitando e protegendo também, por contraponto, a opinião. Para que serve um jornal escolar? Resumindo, creio que serve sobretudo para criar oportunidades inovadoras de aprendizagem. Oportunidades absolutamente irrepetíveis de outro modo, onde o sentido de responsabilidade e a aprendizagem do escrutínio público se fazem no acto de publicar e de fazer um jornal. Um jornal escolar serve também para ajudar a construir um sentido de cidadania. Quer na perspectiva do leitor, quer na perspectiva de quem participa activamente na sua concepção.

A nossa experiência, como tudo o que é vivo e pleno, teve o seu ciclo e terminou. Não se pode repetir, porque praticamente todos os seus protagonistas já sairam da escola. Mas pode recomeçar, de outro modo, com os mesmos objectivos, com outras pessoas, provavelmemnte com o mesmo entusiasmo. O Correio de JB fez a sua história e ajudou a construir uma imagem da escola, por vezes bem pouco lisonjeira. Durante três anos irrepetíveis fomos ao concurso do Público, no escalão do Ensino Secundário, e por três vezes consecutivas, conquistámos o 2º lugar. O que é que se podia pedir mais?

***
O Projecto Público na Escola pode ser visitado, mas ainda não actualizou a informação relativa à edição deste ano do Concurso Nacional. A Câmara do Seixal também apoia a Imprensa escolar e neste link podem encontrar-se referências a todos os jornais escolares do concelho.