paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

terça-feira, novembro 16, 2004

Há paixões e paixões

Desta vez resolvi pegar na mensagem de apelo a novas colaborações, do nosso BlogMaster (não sei se é assim que se diz mas soa bem) José Gustavo que pelos vistos partilha de uma paixão comum a muitos portugueses, o futebol. Sem querer fazer aqui o papel do cidadão lúcido mas chato que passa o tempo a lembrar as fraquezas da sociedade em que vivemos, gostava de lembrar que nem toda a gente partilha dessa paixão. Há quem se esteja nas tintas para os resultados da última jornada, para a equipa que vai à frente, para as últimas contratações, para a última declaração inqualificável de um dirigente desportivo, para o chorrilho de banalidades, redundancias e trivialidades ditas pelo treinador que tem jogo logo à noite ou para os boatos lançados pela imprensa desportiva. Bom mas e depois, dirão: não vem mal nenhum ao mundo que haja diversidade de interesses. O problema é que não há diversidade nenhuma. Os jornais mais lidos, os programas mais vistos e os temas mais falados neste País giram todo à volta de um assunto que ainda por cima não contribui em nada para aquilo de que falamos neste blog: a educação. Podem chamar-me chato à vontade mas considero o futebol uma erva daninha que abafa toda uma série de outros interesses que deveriam mobilizar a sociedade, a começar pelas outras modalidades desportivas. Abafa igualmente a possibilidade de participação dos cidadãos noutras iniciativas. Bastava uma pequena parte das receitas provenientes das quotas voluntárias dos sócios do maior clube de futebol português, para por exemplo dar uma lufada de ar fresco a uma série de associações de defesa do ambiente que lutam permanentemente com dificuldades financeiras. Po exemplo todos conhecemos a paixão dos ingleses pelo futebol mas pouca gente sabe que é também neste país que existem as organizações mais pujantes da Europa em matéria de defesa do ambiente de protecção da natureza. Enfim, foi só um desabafo que julguei oportuno deixar aqui hoje.

1 Comments:

  • At 3:49 da tarde, Blogger José Gustavo Teixeira said…

    Meu caro amigo devia este comentário ao seu post já há muito (o tempo na blogosfera corre velozmente). A questão do futebol... melhor o problema do futebol. Quero dizer que concordo com o horizonte da discussão: o futebol ocupa, em Portugal, uma boa parte do espaço público de debate. E quando vamos ver a qualidade das discussões, seja do adepto em geral, seja do especialista e do comentador, é muito baixa. O país revela-se aí no seu pior. O excesso de futebol na nossa vida pública revela-se no facto do nosso actual primeiro-ministro ter sido até há bem pouco tempo comentador desportivo. Não tiro ilações políticas disto, tiro só consequências culturais.
    Também não suporto ver os programas de debate sobre a jornada - em que pontuam raras excepções de qualidade e rigor (só me lembro de duas: Rui Santos e Luís Sobral) - porque quase sempre são de baixo nível. Mera conversa de café.

    Mas daí, caro Francisco, a demonizar o futebol, que pode ser visto e apreciado metaforicamente como epopeia social de fim de semana ou como a "recuperação semanal da infância", como escrevia Javier Marias, adepto do Real, penso que vai um passo muito largo. Demasiado largo para poder ser dado sem algum tropeção.

    É verdade que o futebol tende a ocupar também o lugar de outros desportos menos rentáveis. É pena e isso deve ser combatido. Mas o futebol também pode servir causas e exemplo disso é o papel que grandes nomes desse desporto têm em campanhas de promoção da saúde e em causas de beneficência. Poderá dizer que as causas de grandes instituições bancárias são mais apelativas do que as outras... pois, eu reconheço isso. O mundo não é perfeito.

    Mas, insisto, o futebol é uma paixão transversal a toda a sociedade e como tudo o que tem esta dimensão não pode ser visto de forma simplista e redutora. Ainda recentemente a experiência do euro 2004 serviu de matéria para um curso de formação adultos e há testemunhos de que o futebol pode ajudar a vencer as resistências de alguns alunos pela escola.

    Quanto ao deficit de participação do cidadão em iniciativas, nomeadamente na área ambiental, que lhe é tão cara, não vejo que a questão se possa colocar assim. Dizer que uma pequena parte das receitas ou das contribuições do maior clube português seria suficiente para revitalizar algumas boas causas ambientais... é demagogia ou, apenas fantasia. Ninguém pode gerir as opções livres dos cidadãos. Eu também acho que as empresas deveriam investir directamente nas escolas secundárias das zonas em que estão implantadas. Em vez de pagar viagens de recreio e de cortesia a altos quadros... etc.. etc... Mas como se faz isso? Com proclamações cívicas? Ou com persuasão e parcerias viáveis?

    Está a ver? Quando se fala de futebol vem logo tudo atrás. Até já estava a arengar sobre as parcerias entre as empresas e as escolas públicas... Isto dá pano para mangas. É a força do futebol. Um abraço.

     

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