paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

sábado, novembro 06, 2004

Geografismos: uma experiência pedagógica entre a divulgação científica e o jornal de parede


"A cada professor, a cada aluno um blog!"


O geografismos - diário de campo on-line para alunos de Geografia – é o blog de Luís Palma de Jesus. Mas neste caso quem diz blog também diz projecto pedagógico concebido para jovens de 12 a 13 anos, com uma grande variedade de sugestões de trabalho no âmbito daquela disciplina. O geografismos "foi feito para ensinar alunos do 7º ano de Área de Projecto a criarem os seus blogs individuais". Em pouco tempo o geografismos, "que nasceu para dar o exemplo de como se faz", ajudaria os alunos de três turmas da escola EB 2,3 de Santa Clara, Évora, a criar e manter um total de 71 blogs. Em condições muito precárias de acesso, sem grandes incentivos, à sua conta. Do ano lectivo passado para este o diário de campo acompanhou a itinerância do professor que o criou e mantém actualizado quase diariamente. Hoje a experiência da descoberta renova-se. São outros alunos, é outra escola, outros problemas... a mesma dificuldade de acesso. Pedimos ao Luís Palma de Jesus que respondesse a um questionário que lhe enviámos por correio electrónico. Aqui ficam, na íntegra, as respostas às perguntas. Recomenda-se vivamente uma visita demorada ao geografismos, onde podemos encontrar posts como este, ou ainda esta sequência de posts sobre os 30 anos do 25 de Abril. Mas há muito mais para explorar. É só clicar.


"O Geografismos nasceu para dar o exemplo de como se faz."


[paixão da educação] Geografismos é um projecto pessoal, de trabalho conjunto com alunos, ou uma iniciativa partilhada com outros intervenientes da escola, num âmbito mais alargado?
[Luís Palma de Jesus] É trabalho pessoal e assim deve continuar. Uma ferramenta que cada Director de Turma [DT], cada professor pode ter para linkar-se aos seus alunos. A cada professor um blog, a cada aluno um blog.

[PdE] Lendo os primeiros posts pareceu-nos que Geografismos começou por ser, sobretudo, uma plataforma de comunicação com os seus alunos, no âmbito da disciplina, e de apoio às aulas. E que depois evoluiu para um sítio com cruzamentos interdisciplinares e com conteúdos mais variados. Teve colaborações de outras áreas do saber, nomeadamente de outras disciplinas?
[LPJ] O crescimento fez-se por tentativa e erro. A expansão para temas associados à Geografia não teve outra justificação que não a de "interesses pessoais". Desejei evoluir para um blog de "divulgação científica para alunos dos onze aos treze anos de idade" em simultâneo com o lado mais prático de um "jornal de parede". Por circunstâncias casuais as colaborações foram demasiado raras e exteriores ao circuito do professorado, tratou-se de cedências de fotografias, jogos e outros materiais.

As melhores trocas vieram de outros blogs, ficando a questão interdisciplinar confinada a um papel residual. Enfim, tenho uma concepção do termo um tanto restrita e raramente o uso.



"Postar pelo menos duas vezes por semana"

[PdE] Qual a atitude dos seus alunos quando começou a desenvolver este projecto? Aceitaram a ideia como um desafio? Não teve recusas por parte deles? E como reagiram os pais?
[LPJ] Obviamente impus-lhes os blogs. Na primeira aula pressenti-lhes a já clássica expectativa de trabalhar em grupo um tema escolhido por todos; forcei-os a aceitar a minha proposta, aliciando-os com dois argumentos: computadores e Internet. Tinha de ser assim, visto nenhum deles saber o que era um blog, ou como criar um site pessoal. Só a hipótese de termos a sala de informática por nossa conta levou a uma reacção entusiástica.

Para os convencer definitivamente apresentei-lhes o Geografismos e acrescentei uma selecção de meia dúzia de blogs que reuniam uma excelente qualidade escrita e gráfica e que sabia, à partida, agradar aos moços.

Antes de criarmos blogs treinámos algumas competências informáticas. Depois, foi só trabalhar com casos reais e claros. Mesmo quando desconhecia o que ia fazer no momento seguinte, dei sempre o exemplo. Creio que ajudou trabalharmos com objectivos muito simples: guardar e redimensionar imagens, criar uma conta de correio electrónico, inserir texto ou escrever tags HTML. Em momento algum deixei os alunos baralhados ou sem saber o que andavam para ali a fazer.

Por outro lado havia o entusiasmo das novas tecnologias. A sala de informática é um sucesso em qualquer escola (sobretudo pela possibilidade do Messenger, jogos e correio electrónico…) e, com um trabalho deste género, eles tinham para si, durante 90 minutos semanais, o objecto de desejo mais cobiçado.

[PdE] Que critérios foram sugeridos aos alunos para a concepção dos seus blogues particulares? – Fazemos esta pergunta ao verificarmos a grande variedade de opções temáticas e alguma diferença nos produtos finais.
[LPJ] Pretendia sugerir-lhes o mínimo possível de critérios. Mas para desencadear o trabalho arrolei uma série de procedimentos técnicos a dominar. Depois, já o blog estava feito, registei hesitações: não sabiam como postar, nem o que escrever; parecia a famosa síndrome do escritor defronte da folha branca, alargado a um grupo de vinte e tantos alunos. Assim, e por uma única vez, ditei o que deveriam escrever: apresentarem-se ao público referindo a sua condição de alunos.

Por vezes esqueci que tinha perante mim alunos sem hábitos informáticos e senti-me defraudado com o tempo perdido em assuntos triviais.

Apenas hesitei quando reparei na calamidade do português escrito da maioria destes jovens bloguistas. Deveria intervir e corrigi-los? Felizmente o elevado número de alunos (71) impôs-me alguma sensatez. Era humanamente impossível corrigir tudo. Sei, agora, que uma intervenção de tipo policial é desmobilizadora; sei, agora, que os próprios tendem a autocorrigir-se e, por vezes, a corrigir os outros via sistema de comentários (uma questão de não passarem vergonhas).

Quanto a conteúdos nada sugeri. Tínhamos a seguinte regra: postar pelo menos duas vezes por semana (tarefa difícil, pois os 90 minutos de computação por turma, apesar de garantidos, estavam reduzidos a metade pela partilha dos pc’s por pares, pela lentidão do acesso à net ou pela inoperacionalidade dos servidores que alojavam os blogues).

Aproveitei ainda o facto dos alunos escreverem sistematicamente, em Formação Cívica, críticas e autocríticas sobre a semana de aulas (uma excelente sugestão do Paulo Leal, DT de uma das turmas envolvidas). Deviam postar os seus "Relatórios Críticos".

Quanto à "liberdade de expressão" criei um limite: Não usar o blog para difamar professores ou alunos. Como os códigos do blog eram conhecidos unicamente pelo aluno, caso não respeitassem esta regra o link do blog seria retirado do Geografismos, o seu autor avaliado negativamente e remetido para outros trabalhos. Devo dizer que nunca, nem de perto, nem de longe, houve algum reparo a fazer.






[CLIQUE NOS DESTAQUES para contextualizar as citações]

DESTAQUES:

"Pessoalmente senti sucesso por todo o lado. Quem entrava na sala de informática deparava-se com um ambiente de trabalho onde apenas se sussurrava (diga-se que para estes alunos falar alto e incidentes disciplinares eram a norma)."

"No Geografismos, para além dos comentários "fun" do professor, encontravam dicas e materiais úteis, datas de trabalhos e testes corrigidos. Imagens e textos de grande qualidade eram linkados e completados nas aulas por materiais algo exóticos e de igual qualidade (cartas militares, negativos de fotografias aéreas, ortofotomapas, cartas imagem, etc)."

"As correcções dos testes escritos remeto-as sempre para o Geografismos (no fim do ano poupei 6 aulas num total de sessenta). Para alguns trabalhos maiores o mesmo aconteceu. Como a maior parte dos alunos optou por não usar os blogs para criarem conteúdos relativos às aulas, ficou para o Geografismos o papel de ligação às matérias de estudo."

"Alguns pais aproveitaram a existência de mail para solicitar respostas muito dirigidas aos assuntos dos seus educandos. Diga-se, contudo, que do ponto de vista parental o mail pode ser muito mais útil do que o próprio blog."

"Quanto aos colegas, no meu local de trabalho, a recepção é distanciada. As TIC, e os blogs (...) são encarados como modismos. Repare que é fácil encontrar no professorado algum desconhecimento de software como o Word ou Excel. Seria inusitado pedir-lhes algum tipo de empatia para com a blogosfera…"

"Uma vistoria completa era todo um fim-de-semana de trabalho: abrir o blog de cada um, espreitar os arquivos, ver o HTML do código fonte quando havia erros na apresentação, insistir quando teimava em não abrir, para, finalmente, actualizar todos os links no template do Geografismos. Na escola acabei afastado da sala de professores: passei a maioria dos intervalos da manhã na sala de informática, mas aí, o problema da lentidão na navegação em "horas de ponta" era demolidor."

"Em Évora poucos tinham Internet em casa. Sei que por altura do Natal os blogs foram a desculpa ideal para exigir a net como prenda no sapato."

"Incentivo e pratico a exposição como uma forma de responsabilização, sujeito-me a ser avaliado da mesma forma que os trabalhos dos meus alunos são sujeitos à avaliação do público em geral."

"Fiz questão de não trazer para a Internet a relação do professor-aluno baseada na autoridade social; seria fugir desnecessariamente ao espírito da blogosfera."

4 Comments:

Enviar um comentário

<< Home