paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

segunda-feira, novembro 15, 2004

Esta paixão da Escola Cultural


Constância, 1999 [copyright2003-secJB-canoagem]

Recentemente teve lugar em Évora um congresso sobre a Escola Cultural, organizado pela AEPEC (Associação da Educação Pluridimensional e da Escola Cultural). Não sei como decorreu o encontro mas aqui na blogosfera falou-se, pouco depois, dos "clubes escolares", denominação que não me agrada mas que terei de usar à falta de melhor.

A discussão começou no outroolhar do Miguel Pinto, lugar onde começam alguns dos debates que vale a pena ter. E teve início no seu post intitulado Falta de lucidez? Comentava-se a medida anunciada da ministra Carmo Seabra de reforçar o peso do ensino do Português e da Matemática. O post acaba com um desejo: "Que bom seria se os clubes escolares renascessem das cinzas para ocupar o seu lugar no sistema educativo, digo eu." O Miguel Pinto fala em ressuscitar, presumindo que o clube escolar tenha morrido. Não sou tão pessimista. Eu diria apenas reanimar, porque acho que o clube escolar está moribundo em muitas escolas, na minha escola.

Em comentário, o Nuno Pinho do Resistente Existencial deixa a pergunta: "O que é, para si, um bom clube escolar?"

O Miguel Pinto responde com novo post: Um (bom) clube escolar. Escreve: Um clube escolar consubstancia a dimensão extracurricular de uma Escola Pluridimensional. Enquanto que no 1º ciclo esta dimensão aparece fundida com as restantes dimensões da escola, no 2º e 3º ciclos aparecem autonomizadas e bem articuladas. No secundário, acentua-se o carácter de liberdade e autonomia na cooperação dos alunos." Acrescento aqui que essa autonomia é o que afasta e aproximada os alunos das actividades extra-curriculares. E também: "A essência de um clube escolar é a sua frequência livre". Admito que a frequência de um clube deve livre, mas deve ser inteiramente livre numa escola com projecto educativo a participação dos alunos e professores em actividades extra-curriculares e de complemento curricular?

O Miguel Sousa de educar para a saúde, prossegue a discussão com o post Os Clubes escolares Escreve: "Mas voltemos ao clube escolar, que acredito ser a via mais rápida para integrar o aluno numa escola capaz de lhe dar prazer e, por esta via, motivá-lo para a aprendizagem de saberes integrados no ambiente democraticamente motivador. Na minha opinião um clube tem que equivaler a um projecto que tenha na sua base de sustentação uma espécie de “vida para além do professor”.


Outras lógicas

Concordo com muitas das afirmações anteriores. Sobretudo quando o Miguel Sousa acentua o trabalho de autonomia que decorre no âmbito da família alargada que um clube representa. O clube vem introduzir no ambiente escolar várias lógicas diferentes da lógica dominante. O clube é transversal na idade e no nível escolar: enquanto a turma organiza os seus membros de acordo com princípios de homegeneidade (e no entanto...). O clube vive em trabalho de projecto, efectivamente planeado ou apenas pressuposto, enquanto que as áreas disciplinares reclamam sobretudo uma fidelidade ao diktat curricular. O clube apela a um sentido de convivência democrática, desenvolve competências cívicas, enquanto que o convívio na escola curricular tende a ser sobretudo hierárquico e formal. O clube caldeia os saberes e as competências exigidas a professores e alunos que se juntam para determinado objectivo, enquanto que a escola convencional é disciplinar e resistente ao convívio de saberes.

No post do educar para a saúde bate-se no ponto: é preciso que a organização dos clubes seja pensada para além do ano lectivo e para além dos professores que, conjunturalmente, os protagonizem. Isso é bom também porque acentua o grau de participação e de responsabilização dos alunos que participam nessas organizações escolares. A autonomia, que tanto apregoamos e tanto tememos, é mais conseguida neste tipo de trabalhos - em que a escola é, de algum modo, reinventada de acordo com critérios menos artificiais.

Sem pretender seguir nenhum eixo, nem definir um programa, gostaria de deixar à consideração algumas das concepções que tenho deste tipo de entidade escolar:


Mais seis notas

A oferta escolar de clubes e projectos, de natureza diversa e fluída, obedece a uma espécie de geometria variável - a oportunidade, o entusiasmo dos seus participantes, as necessidades da escola e da sua população não são factores indiferentes quando pensamos nas actividades extra-curriculares. Não são e não devem ser, ressalvando, no entanto, alguns aspectos.

As actividades extra-curriculares, para não dizer sempre "clubes" resultam frequentemente de uma mistura de planeamento e espontaneidade - é bom que seja assim, enquanto isso representar (nem sempre é o caso) o melhor de dois mundos: o mundo do que é preciso e o mundo do pode ser.

Os clubes devem estabelecer pontes aos saberes curriculares, acrescentando a sua mais valia nas aprendizagens - a dimensão lúdica, a dimensão cívica, cognitiva - e promovendo criativamente a aquisição de competências sociais.

Os clubes devem colaborar com a escola, no seu todo, na assumpção de que eles são património de toda a escola - a escola prolonga-se, com as suas realizações, muito para lá da sala de aula, do tempo lectivo e da rotina da instituição.

Num certo sentido eles são a parte que prevalece da memória da escola - são essas actividades que permanecem nas recordações dos alunos e que muitas vezes cosntituem bom pretexto para retomar o contacto.

Finalmente, os clubes são excelentes instrumentos de consumação do projecto educativo das escolas, pela sua plasticidade e pela capacidade de intervenção dos elementos que os constituem.

Mas há mais.

1 Comments:

  • At 7:29 da tarde, Blogger Miguel Pinto said…

    Este post motivou um novo(?) olhar. Talvez porque há sempre mais qualquer coisa a acrescentar. Foi isso que aconteceu.

     

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