paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

segunda-feira, outubro 04, 2004

Ranking... para que vos quero?



Sou favorável à publicação das classificações dos exames do 12º ano, escola por escola, e considero perfeitamente natural que a partir delas se elaborem quadros ordenados, listas ou rankings por ordem decrescente dos resultados. Os exames são nacionais e ocorrem num momento terminal da formação dos alunos, pelo que os resultados poderão, à partida, ser comparados sem escândalo. Se as escolas podem ser avaliadas por intermédio das classificações dos alunos que a frequentaram, se a qualidade do próprio corpo docente pode ser medida desse modo, já é outra questão. É claro que um ranking e a publicidade que eles trazem à porta da escola não são inocentes e têm as suas perversões. Mas cabe às escolas e aos professores trabalharem devidamente os resultados e desmistificarem aquilo que for simples mistificação dos media. Não tenho a certeza, do que conheço, que esse trabalho seja sempre feito em tempo útil nas nossas escolas.

Os rankings só interessam para alguma coisa se forem lidos e relidos, discutidos, estudados, comparados entre si, contraditados, virados do avesso e relativizados, porque parece óbvio para todos que a interpretação deste tipo de estudos não pode ser literal. Mas ignorar a sua existência, pura e simplesmente, pode deixar a suspeita de que as escolas, ou seja, os professores, não querem reflectir sobre a eficácia das suas práticas e os vícios das suas rotinas.

Na madrugada de sábado passado escrevi aqui que o jornal Expresso se tinha antecipado e que publicava já o seu ranking das escolas... mas não é verdade. O ano lectivo é que começou mais tarde desta vez. Os motivos desse atraso já os conhecemos e ocuparam uma boa parte da agenda mediática do nosso país, trazendo a escola para o prime time e para a abertura dos telejornais, mas pelos piores motivos. A publicidade gratuita dos rankings parece-me (digo-o sem ironia) bem mais vantajosa para a escola e para a melhoria da percepção pública sobre o ensino.

É preciso dizer que não há um mas vários rankings. Na verdade nem sei quantos. Eu sei de quatro e é deles que para já irei falar e que nos próximos dias irei ler. O Expresso, o Público, o Diário de Notícias e o Correio da Manhã, como vêm fazendo nos últimos anos, publicaram no dia 2, sábado, cadernos especiais com todos os resultados. O tratamento da informação varia, no entanto, dando origem a conclusões não completamente coincidentes. Por exemplo, enquanto o ranking do Expresso "elege" o Colégio Luso-Francês, do Porto, como a melhor escola do país, os outros jornais situam o Colégio de Nossa Senhora da Boavista, de Vila Real, em primeiro lugar. E algo semelhante ocorre nos últimos lugares da lista. E tudo porque a partir dos dados em bruto fornecidos pelo Ministério da Educação cada equipa procura construir uma seriação de escolas tão objectiva quanto possível, a partir, inevitavelmente, de critérios distintos. O Expresso, por exemplo, retira da lista principal todas as escolas de menor dimensão em que tiveram lugar menos de 100 exames. Por isso o Colégio de Vila Real, com apenas 21 provas, sai da lista e o Colégio Luso-Francês ocupa o primeiro lugar do ranking com um total de 275 exames realizados.

A João de Barros, por exemplo, a que dedicarei mais atenção noutros posts, ocupa a posição 209 no ranking do Expresso, a 275 no do Público, e a 222 no do Correio da Manhã, não aparecendo na lista das 100 melhores escolas nem na das 100 piores, elaboradas pelo Diário de Notícias. Tudo depende do número de disciplinas consideradas para a ordenação: todas, no caso do Expresso e do Correio da Manhã, apenas as oito com maior número de inscritos a nível nacional, no caso do Público, 14 no caso do Diário de Notícias. E uma leitura atenta dos dossiers destes quatro jornais permite descobrir outras singularidades. Mas o interesse destes quadros mantem-se, em meu entender. A simples descoberta destas diferenças, fundadas na diversidade de critérios, é já uma boa tentativa para compreender o essencial.

E o essencial começa a transparecer após alguns anos de rankings. As entrevistas aos professores das escolas que ocupam os extremos das listas ordenadas, que constituem o melhor e mais suculento destes dossiers, revelam algumas constantes quando se trata de explicar a razão do sucesso: (1) a estabilidade do corpo docente; (2) a dimensão amigável das escolas, em que todos os alunos podem ter um acompanhamento personalizado; (3) o nível socio-cultural dos alunos acima da média e com ambientes familiares propícios à melhoria do seu desempenho; (4) horários de qualidade, deixando tempo para estudar durante o dia; (5) um bom leque de ofertas educativas a permitir escolhas estimulantes; (6) o envolvimento dos encarregados de educação e da comunidade nos processos de aprendizagem; (7) uma cultura de escola que põe acento no rigor e na disciplina e que valoriza o esforço; (8) alunos motivados e com objectivos bem definidos à partida; (9) uma boa relação entre professor e aluno - são, definitivamente, condições para obter bons resultados em qualquer ranking.

Não devemos estranhar, por isso, que, só para dar um exemplo, entre as primeiras 10 escolas do ranking do Expresso, 8 sejam privadas, ou que entre as primeiras 30 apenas se econtrem 12 escolas públicas. Umas e outras, com honrosas excepções, correm em pistas separadas. As escolas públicas correm quase sempre por fora. E por isso têm de correr mais e em piores condições. Até para estas, ou sobretudo para elas, estes dados preciosos e os exemplos de qualidade e excelência que ficamos todos os anos a conhecer, podem ser bastante úteis. É preciso aproveitá-los.