paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

quinta-feira, outubro 07, 2004

Jogos florais

Voltámos às aulas.
Cansados? Felizes? Com boas expectativas? Receosos do que há de vir? Revoltados? Indignados? Apáticos?
Um pouco de tudo.
Para já foi o trabalho burrocrático: reuniões de conselho pedagógico, de grupo, de departamento, de directores de turma; planificações; calendarizações de projectos, de visitas de estudo,etc.
As escolas, quais repúblicas do renascimento italiano, vivem em afanosa labuta a sua autonomia: projectam classificações nos rankings, pugnam pelas suas virtudes educativas, pela originalidade dos seus projectos educativos, pelo valor dos seus quadros e regulamentos.
A tudo isto, em altaneira cátedra, o Ministério, ora com o gesto brando de quem delega poderes e competências nas empreendedoras comunidades escolares, ora com o pulso férreo de quem não prescinde do poder conquistado, mesmo quando este, por desmedido, é inexequível, trata de garantir que tudo vai bem no reino da Dinamarca: se erros houve, serão corrigidos; se falhas houve, serão colmatadas. Ainda bem.
Talvez que esta oscilação, entre a autonomia das escolas e o centralismo ministerial, tenha colocado os professores numa posição de defesa. Todo o trabalho que é feito nas pequenas repúblicas, os regulamentos que estabelecem para as suas práticas, as inovações pedagógicas ou a reafirmação daquilo que por experiência ou tradição tenha frutificado naquele espaço, arrisca-se - sabem-no bem todos os professores - a ficar subsumido face aos ditames de um papado que é o único e lídimo intérprete da verdadeira lei.
Os professores tornaram-se desconfiados: refugiam-se nos papéis, jogam na antevisão dos problemas, duvidam da implementação real que as suas decisões, ou as dos seus pares educativos, possam vir a ter. Não têm do ministério um esclarecimento claro da política pretendida. Não é só "o que ensinar?", programático, ou o planificado "como ensinar?", que preocupa os docentes. A questão verdadeira é o que fazer com os alunos, o que fazer na escola e com a escola, que princípios, que valores, que cidadãos criar?
É certo que há respostas pela positiva. Há escolas que decidem e que arriscam, mas bom seria que um esclarecimento das regras do jogo fosse feito e que um mínimo de princípios básicos fosse implementado. Seria necessária uma simplificação de todos os procedimentos, a anulação de todo o trabalho redundante e a assunção de uma clara política educativa. Os poderes teriam de estar definidamente atribuídos: as escolas e o ministério funcionariam com o conhecimento explícito dos seus domínios; os professores saberiam o que lhes era pedido e por quem lhes era pedido, saberiam o quando e o por quê; os pais saberiam em que princípios eram os seus filhos educados e poderiam agir em consequência.
É certo que a escola, hoje, revela apenas o desnorte do país. A política educativa, ou a falta dela, decorre apenas da crise política, social e humana que nos assola. Se os professores não conseguem alargar os horizontes dos seus alunos é por que faltam aqueles que consigam alargar os horizontes de um povo momentaneamente confuso.
Esperemos que tudo mude num breve espaço.
Bom ano!

1 Comments:

  • At 3:03 da manhã, Blogger José Gustavo Teixeira said…

    "Se os professores não conseguem alargar os horizontes dos seus alunos é por que faltam aqueles que consigam alargar os horizontes de um povo momentaneamente confuso."

    Não percebo: determinismo socio-político-institucional? Somos um reflexo cansado da nossa classe política? De quem é que estamos à espera? De um D. Sebastião impoluto e com Doutoramento feito numa universidade americana? O cansaço também cansa. Acho que estamos todos a ficar cansados e isso cansa mesmo. Sorry the over reaction...

     

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