paixão da educação

a história de um lento regresso à escola, contada pelo 'próprio'

domingo, outubro 03, 2004

Acerca do infinito do universo e dos concursos

A nossa sociedade, no seu impiedoso modo reduzir as pessoas a seus meros utensílios, revelou-se muito claramente neste último concurso de professores. Não houve qualquer máscara. Ouviram-se os clamores dos que pugnavam por uma escola ao serviço dos alunos: ouviram-se os informáticos, os governantes, os ideólogos da educação, os pais, os alunos, os sindicalistas,os jornalistas,os professores, os legisladores, os motoristas e agricultores.Mil vozes indignadas, mil vozes iluminadas no mais claro uso da razão.Como pai, marido e professor também sofri com tudo o que rodeou este lusitano carnaval.Espantou-me a capacidade efabulatória, a grandiosidade de intenções e a capacidade de resolução dos problemas de que tantos deram provas! Espanta-me como o castigo a que tanta gente foi condenada tenha passado com tão pouco relevo! Como professor fiquei envergonhado com os 10039 atestados médicos que foram apresentados com vista a obter um destacamento.Pior fiquei quando me falaram de mais de 2000 retiradas desses pedidos de destacamento, quando a dimensão do primeiro número foi sendo conhecida. Triste país o meu. Como ser credível e digno no exercício de uma profissão que leva as pessoas a este comportamento cívico?É certo que nada acontece sem motivo. Houve uma alteração das regras do concurso que ao relegar o destacamento ao abrigo da lei dos conjuges para a penúltima posição das prioridades obrigou a que as famílias se defendessem procurando preservar a sua unidade: assim surgiu um avó doente, um filho asmático, um... triste fado. Houve pessoas mais velhas, muitas já quadros de escola, a quem só a invocação de uma doença poderia impedir que outras mais novas, ou mais avisadas e que se resguardaram nos limites de uma zona pedagógica, as ultrapassassem. Sabe-se que os sindicatos anuíram a esta alteração das regras do concurso: a estabilidade do quadro docente das escolas era mais importante para os altos desígnios da educação que todos devem servir!Seria? Será?Bem ou mal, os professores são, ainda, uma das poucas profissões, neste país onde a maternidade é tão mal defendida, em que o luxo de ter filhos, de criá-los e educá-los é, por comparação com tantas onde isso é interdito, uma possibilidade, ou tem sido. Muitos professores têm família e querem preservá-la! Muitos professores estão dispostos a mentir por isso. Será crime? É.Será que o professor está condenado a ser um republicano missionário das democráticas luzes da razão? Sim, com o mais voluntarioso dos franciscanismos. Sim, no maior dos desapegos, na mais espartana das condições.Os professores olham para as novas regras e, do mal o menos, vêem que é mais vantajoso serem quadros de zona pedagógica - os limites da deslocação ficam delineados e a vida familiar poder ser organizada dentro destes - do que concorrerem a um lugar de quadro de uma escola distante: tão distante que só uma doença de lá os poderá tirar. Será que assim algum dia algum professor se fixará numa escola e se tornará conhecido e respeitado num local permanente de trabalho? Não vejo como. Não consigo entender pela positiva a lógica que levou a esta situação.Não sei como será possível revolucionar o sistema de ensino português:como destruir tudo o que existe e construir algo de inteiramente novo. Não me parece possível e, francamente,também não desejo tal aventureirismo.Parece-me que estamos condenados a sofrer este sistema durante muito, muito tempo. Não há revolução possível, não há valores para sustentar qualquer alteração, não há gente que possa dar corpo a nada de diferente. Bem ou mal assim teremos de viver e assim teremos de educar os nossos filhos.Como no tempo dos gregos, o professor vive uma servil condição, mas com a agravante de já não servir um visível objectivo, de não encontrar um referente, uma política, uma ética, um conjunto mínimo de axiomas que o ajudem a conduzir aqueles que lhe são confiados.Hoje, não é reconhecido ao professor qualquer saber, qualquer sapiência.Pior que o enxovalho de ter de comprar atestados, e de ser apontado a dedo por isso, é a fraqueza de enfrentar jovens sem ter o que lhes dizer.Que caminho deve o professor indicar? Que vida escolher? Que valores? Que princípios?Quando os professores têm de mentir a si próprios, para esquecerem as humilhações a que se sujeitam, há o risco de perderem as forças e se tornem incapazes de mentir para os outros.O que ficará depois? O vazio instrumental? A simples instrução, repetitiva, taxativa, factual? Mas nós só queremos uma sociedade de pessoas, de pessoas livres, de pessoas que se amem e respeitem.Francisco